CI

Irrigação do café pode evitar perdas na frutificação

O excesso de água também exige atenção


Foto: Pixabay

A irrigação do café ganha importância durante a frutificação, fase em que o cafeeiro apresenta alta sensibilidade ao déficit hídrico. O manejo adequado busca manter a umidade do solo próxima à capacidade de campo, evitando tanto a falta quanto o excesso de água, que podem provocar abortamento de frutos, rachaduras, desuniformidade e perdas de produtividade.

Entre setembro e junho, o cafeeiro passa por florescimento, frutificação e maturação, etapas que concentram eventos importantes do ciclo reprodutivo. Nesse período, as condições climáticas variam entre chuvas, veranicos e, em algumas regiões, o início da seca no final do enchimento dos frutos.

Durante a frutificação, a planta direciona grande parte dos fotoassimilados para os frutos. Por isso, períodos de déficit hídrico moderado a severo podem aumentar o abortamento de flores e chumbinhos, provocar desuniformidade no tamanho e na maturação dos frutos, elevar a ocorrência de frutos chochos e grãos mal formados e reduzir a produtividade e a qualidade da bebida.

A falta de água também pode afetar o crescimento dos grãos durante o enchimento dos frutos. Já a alternância entre períodos prolongados de seca e posterior irrigação ou chuva intensa pode favorecer rachaduras, principalmente quando a maturação se aproxima.

O excesso de água também exige atenção. Irrigações desajustadas ou problemas de drenagem podem reduzir a aeração do solo, prejudicar o sistema radicular, estimular doenças e diminuir a eficiência da adubação. O manejo, portanto, precisa equilibrar a reposição de água com a capacidade do solo de armazená-la.

Durante a frutificação e o enchimento dos grãos, a demanda hídrica do cafeeiro aumenta em relação às fases vegetativas iniciais. A evapotranspiração da cultura (ETc) depende da evapotranspiração de referência (ETo) e do coeficiente de cultura (Kc), que tende a ser maior quando a planta apresenta maior área foliar e frutos em desenvolvimento.

Em períodos mais quentes, secos e com vento, a perda de água pelo sistema solo-planta-atmosfera aumenta. Nessas condições, o produtor pode precisar realizar reposições mais frequentes ou utilizar lâminas maiores, sempre considerando as características da lavoura.

O tipo de solo também interfere diretamente no manejo. Solos arenosos armazenam menor quantidade de água disponível e, por isso, exigem aplicações menores e mais frequentes. Já os solos argilosos conseguem armazenar mais água e permitem intervalos maiores entre as irrigações, com lâminas um pouco mais elevadas.

A textura e a estrutura do solo, o teor de matéria orgânica, a profundidade efetivamente explorada pelas raízes e a presença de camadas compactadas determinam o tamanho desse reservatório de água. Em lavouras bem manejadas, a profundidade explorada pelas raízes do cafeeiro é geralmente estimada entre 0,4 e 0,8 metro.

Para definir o momento da irrigação, uma das estratégias é utilizar o balanço hídrico. O cálculo considera a chuva efetiva, a evapotranspiração de referência, o coeficiente de cultura e a capacidade de armazenamento de água do solo na profundidade explorada pelas raízes.

Ao acompanhar a diferença entre a entrada de água, por chuva e irrigação, e a saída, representada pela evapotranspiração da cultura, é possível estimar a reserva disponível no solo. Quando essa reserva se aproxima do limite mínimo recomendado, deve-se programar a irrigação para evitar que o estresse hídrico se estabeleça.

O monitoramento direto da umidade também auxilia na tomada de decisão. Tensiômetros podem ser instalados em diferentes profundidades para indicar a tensão com que a água está retida no solo. Sondas de capacitância ou TDR permitem acompanhar o teor volumétrico de água, enquanto a avaliação manual da umidade pode ser utilizada como complemento.

A leitura da própria planta também contribui para identificar alterações no manejo. Folhas levemente murchas nas horas mais quentes, recuperação lenta ao final do dia, queda de folhas próximas aos frutos e abortamento de chumbinhos estão entre os sinais associados ao déficit hídrico.

Por outro lado, solo constantemente encharcado, odores associados à falta de oxigênio e raízes escurecidas podem indicar excesso de água. O aumento de doenças de solo ou radiculares em áreas mal drenadas também merece atenção.

Na definição da lâmina, o princípio é repor a água consumida pela cultura sem ultrapassar a capacidade de armazenamento do solo. A quantidade aplicada deve considerar a ETc acumulada desde a última irrigação significativa, descontando as chuvas úteis, além da capacidade de armazenamento na profundidade ocupada pelas raízes.

A lâmina também precisa ser ajustada à vazão do sistema e à capacidade de infiltração do solo. Em sistemas corretamente dimensionados, o projeto de irrigação já apresenta a lâmina correspondente ao tempo de funcionamento, facilitando a conversão do volume de água necessário em horas de operação.

O manejo muda conforme o tipo de solo. Em áreas arenosas, a menor capacidade de armazenamento exige maior frequência de irrigação. Em solos de textura média, o produtor trabalha com condições intermediárias de lâmina e frequência. Nos solos argilosos, as aplicações podem ser maiores e mais espaçadas, mas é necessário evitar encharcamento e escorrimento superficial.

Entre setembro e junho, as condições climáticas também exigem ajustes. Na primavera e no início do verão, veranicos após as floradas podem provocar reduções rápidas na umidade do solo. Em períodos de chuva bem distribuída, a irrigação pode ser reduzida ou suspensa temporariamente, desde que o solo permaneça dentro da faixa adequada.

No enchimento final e no início da maturação, principalmente quando a estação seca começa, a irrigação pode ser necessária para garantir o tamanho dos grãos e evitar estresse excessivo. Mesmo nessa fase, aplicações exageradas devem ser evitadas para não favorecer problemas relacionados ao excesso de água.

A frequência de irrigação depende da combinação entre solo, clima e sistema utilizado. Em sistemas localizados, como gotejamento e microaspersão, podem ser adotados turnos de rega mais curtos e lâminas menores, favorecendo a distribuição da água na região explorada pelas raízes.

O horário de aplicação também pode ser considerado. A irrigação fora das horas mais quentes tende a reduzir perdas por evaporação direta. Madrugada, início da manhã e final da tarde podem ser períodos adequados, dependendo das características do sistema e da disponibilidade de energia.

O manejo da água ainda precisa estar integrado à adubação e à fertirrigação. Quando nutrientes como nitrogênio, potássio e micronutrientes são aplicados pela água, a lâmina deve permitir que eles sejam distribuídos de maneira eficiente na zona radicular.

Irrigações muito rasas podem deixar nutrientes concentrados na camada superficial do solo, enquanto lâminas excessivas podem aumentar as perdas por lixiviação de elementos móveis. Por isso, o manejo deve considerar a análise de solo e folha, o projeto de fertirrigação e as orientações de rótulo e bula dos produtos.

A disponibilidade de água também interfere no manejo fitossanitário. O excesso de umidade pode favorecer doenças de raiz e de parte aérea, enquanto o estresse hídrico prolongado pode reduzir o vigor das plantas e aumentar a predisposição a problemas como broca-do-café e cochonilhas.

Antes de definir a lâmina e a frequência de irrigação, é necessário verificar se o sistema está corretamente dimensionado e apresenta uniformidade adequada de aplicação. Equipamentos subdimensionados, entupidos ou mal regulados podem gerar diferenças de umidade entre plantas e comprometer a uniformidade de florescimento, frutificação e maturação.

O acompanhamento dos dados de chuva, irrigação e umidade do solo permite aprimorar o manejo ao longo das safras. A combinação dessas informações com a observação das plantas ajuda a identificar rapidamente problemas de frequência ou de quantidade de água aplicada.

O manejo da irrigação na frutificação do café deve, portanto, partir das características específicas de cada talhão. O objetivo é conhecer a capacidade de armazenamento do solo, estimar o consumo de água pela cultura e repor a quantidade necessária sem provocar estresse hídrico ou excesso de umidade.

Qualquer intervenção com produtos químicos pela água, como a fertirrigação, deve seguir as orientações de rótulo, bula e legislação vigente, além de receituário agronômico quando exigido. O acompanhamento de um(a) engenheiro(a) agrônomo(a) ou profissional habilitado é indispensável para adequar o manejo às condições de cada lavoura.

Assine a nossa newsletter e receba nossas notícias e informações direto no seu email

Usamos cookies para armazenar informações sobre como você usa o site para tornar sua experiência personalizada. Leia os nossos Termos de Uso e a Privacidade.

2b98f7e1-9590-46d7-af32-2c8a921a53c7